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Granjinha/Cando

e Vale de Anta... factos, estórias e história.

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27
Jan12
  (…. de rodelas de …)

 

 

 

Era um Janeiro nevado.

 

O frio soprado pelos Picos da Europa cortava os ossos.

 

A ladeira do Monte da Forca subia-a com dificuldade.

 

O Pedrete, plaino, atravessou-o com animador descanso.

 

O rigueiro da Fonte da Moura já não o pulou como outrora.

 

O bordão em que se apoiava era feito de rodelas de saudades e de tristezas.

 

Molhou os pés, como sempre os molhava nas madrugadas dos dias chuvosos de invernia, quando ia para a cidade, e nas noites caídas quando regressava ao consolo da ceia da avó.

 

A subida das “Carvalhas” fê-la com sacrifício.

 

Ao lado direito, ainda lá estava o cancelo de pedra, outrora atalho para as Casas-dos-Montes.

 

Chegado ao Alto, recordou a «Violeta», aquela gata meiga, dedicada, que acompanhava sempre a Tia São quando esta ia à cidade, e lá estava na hora certinha a esperá-la, no regresso.

 

E na seira dos recados vinha sempre um regalo para o Neto da Granginha!

 

Daí até ao Largo do Carvalho, a rua continua silenciosa e, hoje, estragada com as maleitas de modernidades.

 

A varanda do sr. Petim já não tem flores. E já não se trazem cigarros da cidade.

 

O Largo está vazio.

 

Já não zurram os burros do Tio António Guarda, não se ouvem as pragas da Tia Quinhas!

 

Já não se escutam os ais da Tia Aurora, mal os «bicos de papagaio» a tocavam, nem as ordenanças da Tia Maria do Campo a mandar calar o impertinente “Tejo”.

 

Aí chegado, procurou fôlego debaixo da varanda.

 

A varanda!

 

Recordou a aventura em que a mãe da Amélia se meteu ao fazê-la.

 

Diziam que ia cair, depois de pronta.

 

À noite (foi num Verão), os construtores cantavam e tocavam violino e concertina. E a alegria espalhava-se pelo Povo.

 

Mais abaixo era a «Pipa». E por cima desta, o poiso dos rouxinóis trinadores.

 

E, por aí, é a descer. Levemente.

 

Mas não sabia se o coração o deixava chegar à esquina do muro à esquerda e desfazer a leve curva que aí termina.

 

Aí se abre o portão para a casa onde nasceu e onde os braços da Avó o apanharam do chão, do berço e do ar.

 

E lá ao fundo a Casa do Campo, com a soleira da porta mais divina do mundo.

 

 

Era aí, sentados, que a Avó, o sobrinho e o neto, comungavam o enorme prato de barro colorido e pintado, com aquela felicidade que só o amor e a amizade sentidos mesmo, mesminho, lá no fundo da alma e dos corações ilumina.

 

O frio de Janeiro gelava.

 

Mais abaixo, no Largo da Capela, num banco de pedra, o Romeiro eleva uma prece a Zeus para que este torne doce e suave o sono daqueles que lhe deixaram tanta Saudade.

 

 

 

 

Romeiro de Alcácer

 

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